domingo, maio 28, 2006

Peço-te que me abrigues na saia rodada do vento norte. Leva-me às cavalitas que eu quero tocar a nervura das sombras, arregaçar as mangas ao sol e sentir o roçagar da poesia nas praças ou na inclinação dos telhados. Quero decifrar a rota dos pombos, perceber como as ruas dessa cidade beijam os umbrais, acariciar em cada beco o hálito da erva. Já descobri que da janela da tua casa a ria é um navio de espelhos. E que na tua sala há um pomar. Pelas escadas, os versos agarram-se delicadamente ao corrimão como o musgo que cobre os muros das traseiras. Eu sei que adormeces na página de um livro antigo encostado a um cestinho de aromas. Todos os aposentos estão perfumados de palavras e tu sabes, como ninguém, que há palavras que nunca se gastam. Uma vez ensaboei-me com um poema da Sophia que espreitava de um búzio na banheira. Se a amizade é este desvelo pelo alfabeto, que é outra forma de ler paixão no desfolhar dos pequenos gestos, então deita-me contigo na cama de letras do teu quarto. Com a pena de um velho caligrafo desenharei na página branca dos lençóis os sinónimos de um corpo entreaberto. E com os lábios húmidos hei-de percorrer a trepadeira de metáforas que cresce nos ombros da noite. Não admira que voem tapetes de veludo no céu desse olhar e que as tuas mãos contem histórias sono dentro. Porque mesmo a dormir tu és parecida contigo.

Alberto Serra