quinta-feira, março 09, 2006

Textos e Pretextos

Apareceu aqui um objecto precioso:

" Sisífo encarnava na mitologia grega a astúcia e rebeldia do homem frente aos desígnios divinos. Filho de Éolo e fundador de Corinto, viu-se à mercê do castigo de Zeus que lhe impôs que fizesse rolar eternamente um enorme rochedo, ladeira acima. Mas mal o rochedo atingia o cimo, voltava a cair mercê do seu próprio peso e o trabalho tinha de recomeçar. A lenda mais conhecida sobre Sísifo conta que, num momento de ira, Zeus lhe enviou Thanatos, o génio da Morte, para que o matasse. Mas Sísifo apanhou Thanatos de surpresa e acorrentou-o, de tal maneira que, durante algum tempo, nenhum homem morreu. Certas pessoas são persistentes nas suas convicções, atentas às pequenas ou grandes coisas da vida, resistentes nas causas difíceis, denunciadoras das angústias, mas também das paixões e do amor. Só que a pedra vai rolando e tem de haver quem acredite que, mais uma vez, ela chegue ao topo da montanha. Chico Buarque de Hollanda, na delicadeza com que lapida cada palavra, é talvez o melhor exemplo de Sísifo, uma metáfora do mundo contemporâneo onde se luta contra a indiferença, a culpa, a esterilidade que a diferença de classes provoca. Mas cada palavra de Chico Buarque é vida, numa sede constante de abertura e atenção ao mundo. Só que "Tem dias que a gente se sente / Como quem partiu ou morreu". E a pedra vai rolando. "A gente quer ter voz ativa / No nosso destino mandar". [...]
Na Roda Viva da vida certas pessoas conseguem fixar o tempo, nem que por breves instantes, entre palavras cantadas ou o canto das palavras porque "A gente vai contra a corrente / Até não poder resistir". E mesmo que a pedra vá rolando, Chico Buarque, compositor-intérprete-escritor, ajuda-nos a tornar a subida menos íngreme. "Roda mundo".

de Ricardo Paulouro no belo editorial do número sete da revista Textos e Pretextos
Edição do Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa