quinta-feira, março 23, 2006

O impulso de chamar Professor a quem nos ensina noutra escola



Pé ante pé, a poesia


"Fazer chegar a poesia às pessoas é certamente uma arte. Para muitos, a poesia nem sabem bem o que é. Para outros, é um modo de desligar da realidade: veja-se a forma como Manuel Alegre foi tratado por muitos jornalistas e homens políticos. Para outros é uma linguagem estranha, uma espécie de país estrangeiro. Por isso (e por amizade e admiração por Manuel António Pina), aceitei ir a Santo Tirso, que aliás não conhecia. A experiência compensou. A imaginação anda pela rua, pelos lugares públicos. Pé ante pé, devagarinho, a poesia avança.O motorista que me tinha ido buscar ao Porto foi-me dizendo pelo caminho que o bolo imprescindível quando se vai a Santo Tirso é "o jesuíta". Todos já conhecemos os jesuítas, mas descobre-se que estes têm uma massa especial que os torna leves e estaladiços. Entrei na pastelaria Moura com modos de agente secreto, e que verifico? Que o extremamente dinâmico presidente da câmara, a vereadora da Cultura e o organizador dos acontecimentos, Alberto Serra, todos lá estavam a ouvir poesia proferida por jovens actores com bata branca de enfermeiros.Donde, a poesia andava pelos cafés. Foi ainda objecto de uma conferência bem interessante, com um tema insólito. No auditório da biblioteca, belíssima criação dos arquitectos Maria Manuel Oliveira e Pedro Mendo, o dr. Lopes Gomes falou sobre Cardiologia e poesia, centrado menos na poesia e mais nos ritmos biológicos das emoções. Foi um momento estimulante que contribuiu para reforçar a ideia de que "a poesia faz bem à saúde".À noite, nas instalações repletas da Câmara Municipal de Santo Tirso, tivemos uma intervenção musical, leitura de poemas, tudo isto consagrado ao poeta Manuel António Pina. Coube-me o prazer de apresentar o autor e desenvolver com ele uma conversa em que o público participou. Entretanto, pseudodelegados de propaganda médica e piquetes de urgência, distribuíam um "medicamento" que dava pelo nome de "Poemamax XR", ideia divertida em que dentro de uma caixa de remédios surgia um pequeno frasco com a "literatura". Lá se dizia que o medicamento poderia ter efeitos colaterais mais ou menos desejáveis: "Paixões, sintomas de alucinação e de abandono compulsivo de actividades rotineiras", isto é, consequências passionais derivadas. O medicamento era útil em "casos de prolongada tristeza, depressões, solidão, práticas consumistas, impaciência, insónias, teledependência e hipossensibilidade" e provoca "sintomas de dependência em pacientes pouco habituados à leitura e à partilha de sentidos".Como declarou Manuel António Pina (que estende a sua sensibilidade poética à mais estranha ficção e sobretudo aos contos para crianças"), há mais vida para além da poesia. Pois é. Tal como há mais vida para além do défice. Santo Tirso é um exemplo disso mesmo. Tal como os gatos e cães de que Manuel António Pina tanto gosta, o poema existe em si mesmo, como evidência exclusiva. Não é forçosamente comunicação, mas algo que nos toca. O mais importante no mundo: tu e alguma poesia. Mas tu és sempre a poesia em si mesma."

Eduardo Prado Coelho na crónica "o fio do horizonte", Jornal Público de 23/03/2006