sexta-feira, março 31, 2006

da ternura





Hoje o dia estava mesmo cinzento e havia raios e coriscos a crescer tempestade dentro da boca.

Depois? Depois, entrou aqui a doce Professora Alice com os seus alunos de Literatura do 10ºI (Escola Secundária José Estevão).

Abrimos, lemos, conversámos LIVROS.
Bebemos chá. Entornámos açucares.
Olhámo-nos para dentro dos olhos. Perscrutámos um navio de espelhos.
Sorrisos. Muitos.
Que inveja, aquele riso nervoso e fosforescente que nos pode nascer na boca quando estamos a descobrir tantas coisas ao mesmo tempo.
Palavras? Há algumas que são mais ou menos proibidas, não é? Não, só fazem corar.
Às vezes as mais inofensivas também. Às vezes uma só faz corar.
Às vezes quando te olho, coras.
Quase que fazíamos uma antologia de poemas minímos.
E tu? Já leste algum poema que te fizesse ficar mesmo diferente?
Quando acabas de ler um poema costumas ir ver-te outra vez ao espelho, para ver se ficaste igual?
A Professora Alice já, um do David Mourão-Ferreira, o último com que isso lhe aconteceu.
Sim, que "isso" já lhe aconteceu muitas vezes.
Diz-nos isto, levantamos a cabeça do livro e tem àgua fresca a dançar nos olhos.

Depois? Depois, antes de irem embora:

Livreiro da Esperança

Há homens que são capazes de uma flor
Onde as flores não nascem.
Outros abrem velhas portas
em velhas casas fechadas há muito.
Outros ainda despedaçam muros
acendem nas praças uma rosa de fogo.
Tu vendes livros quer dizer
entregas a cada homem
teu coração dentro de cada livro.

Manuel Alegre, "Praça da Canção"

E dissémos uma para a outra:
- se fossemos pequeninas podiamos chorar, porque apetecia, não era?

Obrigada, Professora Alice
por nos encher este dia de madrugadas.