quarta-feira, março 22, 2006

24 horas de poesia Santo Tirso




Relato breve com sono e promessa de regresso










Poemax XR com "mais saída do que o Ben-u-ron" no Hospital de Santo Tirso


"Delegados de propaganda poética e um piquete de emergência distribuíram amostras
do "genérico poético de largo espectro" aos doentes internados. Pelo terceiro ano consecutivo, comemorou-se o Dia Mundial da Poesia na rua.

Até ontem, o Hospital de Santo Tirso foi notícia por estar na shortlist das maternidades a encerrar. Ontem, foi notícia por ter sido o primeiro hospital do país a testar a eficácia do Poemax XR. O "genérico poético de largo espectro" desenvolvido pelo "grande laboratório de metáforas" Poetolab começou por ser apresentado pelos delegados de propaganda poética aos médicos de serviço e foi depois indiscriminadamente administrado pelo piquete de emergência aos doentes internados em diversas enfermarias - e nos quartos, por enquanto ainda abertos e ainda autorizados a administrar genéricos aos recém-nascidos e às respectivas mães, da maternidade.
Não foi a primeira vez que houve poesia no Hospital de Santo Tirso: há dois anos, já então também sob a orientação do jornalista e diseur Alberto Serra, o piquete das 24 Horas de Poesia entrou pelas urgências às 5h30 da manhã para cumprir o seu "dever de falar" alto do pai de Ana Luísa Amaral, do avestruz todo gris de António Botto, das palavras entre nós e Cesariny, da página aberta do corpo de Ramos Rosa e do bebé de Jorge Sousa Braga na Incubadora. Ontem voltou a haver disso, na maternidade: "Pesava quinhentos gramas e respirava/ sem ajuda do ventilador/ O coração da sua mãe quase que não batia/ com receio de que ele sufocasse/ sob o peso do seu amor".
Mas foi a primeira vez que o piquete do Dia Mundial da Poesia - que há três anos se comemora na rua, em Santo Tirso - passou para lá da sala de espera e entrou nas enfermarias, ainda que sob a supervisão das equipas médicas já convertidas às propriedades terapêuticas do Poemax XR pelos três delegados de propaganda poética destacados para a operação.
Primeira prescrição, ainda na sala de reuniões do serviço de Medicina (foi a fase da lavagem cerebral, com os médicos "um bocado renitentes, não é?, mas isto vai ter mais saída do que o ben-u-ron"): Atropelamento e fuga, de Manuel António Pina. O delegado de propaganda poética tira o folheto da embalagem, lê a composição ("poemas populares e eruditos de largo espectro"), enumera as indicações terapêuticas ("casos de prolongada tristeza, depressões, solidão, práticas consumistas, impaciência, insónias, teledependência e hipossensibilidade") e descreve os efeitos secundários ("sintomas de dependência em pacientes pouco habituados à leitura e à partilha de sentidos"). Há uma médica que aceita uma amostra e toma As vozes, outro poema de Pina. Os efeitos são imediatos, e um dos delegados de propaganda poética aproveita: "Sentimo-nos todos muito melhor - é a prova de que o medicamento efectivamente funciona. Entrámos todos circunspectos, e agora estamos todos com um serviço nos lábios. Ainda por cima, é comparticipado e podem tirar-se fotocópias. Você agora passa o medicamento aos seus colegas na pausa do café, no intervalo do almoço".
Na enfermaria 6 do Serviço de Ortopedia - duas pernas engessadas, um braço ao peito, duas canadianas e um campeão paralímpico com o "pequeno problema" (sic) de ter ficado paraplégico aos três anos -, pausa no programa da manhã da Fátima Lopes para mais uma demonstração do Poemax XR. A doente da cama 1 gostou do saco de pano (um bloco de notas, um postal e uma amostra do genérico) que o laboratório deixou lá ficar e bateu palmas ao poema sobre a felicidade do campeão paralímpico João Correia. No fim perguntou quando é que passava na televisão: não foram só 15 minutos de poesia, também foram 15 minutos de fama."
de Inês Nadais
para o Jornal Público de Quarta, 22 de Março de 2006