sábado, fevereiro 18, 2006

Desde esta porta adivinha-se o mar

"[...]O Sol sai cedo de manhã
para dar mais luz ao meio-dia.[...]"
J.M. Fonollosa

Lá fora: rebenta uma tempestade de granizo
Cá dentro: está quentinho, há chá de ervas nórdicas e os jornais da semana estão abertos sobre as mesas.
Lá fora: as pessoas passam correndo e não falam, tiritam.
Cá dentro: escutamos a Martha Escudero que canta "Mala por naturaleza" e conta histórias de "malas mujeres".


Lá fora: não há lá fora para quase ninguém, hoje.
Cá dentro: livros, imagens do Vietname e outras daquelas paisagens.
Lá fora: o mar.
Cá dentro: um poema.


A Estrada Branca

Atrevessei contigo a minuciosa tarde
deste-me a tua mão, a vida parecia
difícil de estabelecer
acima do muro alto

folhas tremiam
ao invisível peso mais forte

Podia morrer por uma só dessas coisas
que trazemos sem que possam ser ditas:
astros cruzam-se numa velocidade que apavora
inamovíveis glaciares por fim se deslocam
e na única forma que tem de acompanhar-te
o meu coração bate

[de José Tolentino de Mendonça, no livro Estrada Branca, Assírio e Alvim]