segunda-feira, novembro 07, 2005

Poema em forma de pessoa





































[Maurício Leite especializou-se em levar malas de livros às crianças do Brasil e dos Palop. Trabalha há 25 anos no Mato Grosso com a população indígena da ilha do Bananal.]

Reportagem de 4 páginas do Semanário Expresso de dia 5 de Novembro de 2005, com texto de Luciana Leiderfarb e fotografia de Nuno Botelho:

Onde o mundo parou, onde há escolas que se erguem sobre qautro varas de madeira e só a palha protege as cabeças dos caprichos do tempo, onde se chega de canoa, atravessando quilómetros de pântano, onde os conflitos da terra ainda se resolvem com tiros à queima-roupa, ou cidades de barracas se edificam em cima do lixo, é ali que ele trabalha. É para essas latitudes que viaja, há mais de 25 anos, desde que se formou arte-educador no Rio de Janeiro e designou para si mesmo a resolução desta difícil equação: como fazer com que uma quantidade reduzida de livros atinja a maior quantidade de pessoas no menor espaço de tempo e por um custo mais baixo. Maurício Leite fez do incentivo à leitura o seu modo de vida e, hoje, divide-se em acções nos países africanos de língua oficial portuguesa e no Mato Grosso(Brasil), região que conhece como a palma da sua mão e que o conhece a ele com igual intimidade, não fosse Maurício um filho da terra. A ideia de levar uma mala de madeira - à semelhança das malas dos actores - carregada com livros pelo mundo fora surgiu da necessidade, da falta de meios e de material, como ele mais tarde contará, mas não tardou a converter-se no seu principal projecto, o Projecto Malas de Leitura e Oficinas de Brinquedos. Há um ano, no meio dos seus trajectos, encontrou Portugal, para onde veio a convite da Biblioteca de Beja. Partiu deixando a promessa de regressar e ficar por um período mais longo e, agora, que tem pela frente uns meses mais desafogados, está a pagar a promessa com a realização palestras para professores e pais em Vila Nova de Paiva, Santa Maria da Feira, Cascais, Beja, Aveiro, Pombal e Mértola, terminando em Los Silos (Canárias), antes de partir rumo a Moçambique em Janeiro, financiado por ONG canadiana.
Maurício acabou de chegar de Angola, pelo que o seu sorriso, habitualmente amplo e fácil, ainda se encontra toldado por uma finíssima película de tristeza. Esteve em aldeias do interior, na zona próxima de Benguela, levando malas de leitura, organizando acções de formação para professores locais e «horas do conto» para as crianças.