domingo, outubro 02, 2005

A vida começa a ser real algures aqui















Antes de Setembro: fizémos a dita Comunidade de Leitores, como sempre na última Sexta-feira de cada mês.
A Comunidade de Leitores é uma mesa com chá e bolinhos (da Avó) e pessoas que se juntam para falar do livro que andaram a ler, ou a espreitar, no último mês. Depois convidamos o escritor a vir até esta tertúlia. Em Julho lemos o Sr. Valéry e foi muito boa a conversa com o Gonçalo M. Tavares, teve acesa discussão e tudo. Contra a unanimidade. O texto como um treino para agitar o músculo de reflectir, de pôr em questão, de estar alerta.
Lemos "O Mal", do Paulo José Miranda, que teve a amabilidade de escrever um texto sobre o livro que aqui deixo para que a Comunidade de Leitores se alarga (mas não muito).

TEXTO PARA SER LIDO NUMA CIDADE
[Para a Sónia Sequeira e para o Filipe Teles]

O livro O Mal foi escrito numa quinta perto de Istambul, junto ao Mar
Negro. Escrevi o livro nessa casa, no mês de Julho de 2002. A ideia do livro não foi minha. O senhor André Jorge, editor da Cotovia, propôs-me uma de duas coisas: uma estadia de três meses no Japão, para escrever um texto ficcionado acerca de Venceslau de Moraes ou uma estadia em Macau para escrever um texto do mesmo género acerca de Camilo Pessanha, e qualquer uma das viagens e estadias seria patrocinada pela Fundação Oriente. Não tive dificuldade, nem em aceitar, nem em escolher a segunda das propostas. Não pelos lugares, mas pelos autores. Pessanha fascina-me e Venceslau, não. Ao tempo, vivia em Istambul. regressei a Lisboa duas semanas antes, para depois embarcar para Macau, no início de Fevereiro de 2001. Confesso que não sabia o que se iria passar com o livro. Em relação à minha escrita, sou extremamente organizado e incorruptível, pois tenho livros em lista de espera para escrever, dentro da minha cabeça, demoro muito até que comece a escrever e não permito que nenhum passe à frente de outro que já esteja na fila, mesmo que a vontade de o escrever seja muita. Escrevi um livro em Outubro passado, no qual venho pensando desde 1998, assim que acabei de escrever Natureza Morta, embora já soubesse, muito antes disso, que iria escrever o Vício, e escrevi-o. Por conseguinte, escrever O Mal foi a minha primeira, e única, experiência de corrupção às minhas próprias regras, até à data. Um livro passou à frente dos outros por causa de interesses. Isto afectou a história toda do livro, certamente, mas também causou a demora que levei em escrevê-lo. Alguma coisa em mim, provavelmente eu, não queria escrever este livro. Como havia um contracto, reconheço, hoje, que o melhor para mostrar Portugal e Macau, à imagem da narrativa, seria não escrever o livro! Por outro lado, o narrador do livro para ser conforme à imagem de Pessanha teria de escrevê-lo. Digo o narrador, porque as primeiras páginas foram escritas ainda em Macau, no final do primeiro mês em que lá estive. Em Macau, escrevi até à página dezoito, e escrevi também o fim, o relato da trafulhice dos quadros, que se soube precisamente quando eu estava lá. Faltava-me ligar o princípio ao fim e carregar esse narrador comigo ao longo de quase um ano e meio. E foi o que fiz, bem ou mal. Espero que tenha sido mesmo mal! Mais por isto do que pelo facto de ser a primeira vez que escrevia centrado neste nosso tempo, com a linguagem do nosso tempo, considero O Mal um livro especial no conjunto dos meus livros. Até porque os livros que já tinha em lista de espera iriam ser, como são, centrados neste nosso tempo. Do ponto de vista pessoal, O Mal é um livro desenraizado, tal como o assunto que ele trata. Desenraizado de mim, dos meus projectos, das minhas próprias regras. Por outro lado, a minha experiência de viver vários anos na Turquia, em geral, e particularmente em Istambul, concedera-me também a experiência de desenraizamento cultural e linguístico, que tanto parece afectar o narrador de O Mal, ainda que sejam experiencias de desenraizamento bastante distintas. Mas quem já alguma vez sentiu falta de si, saudades de si, vai sentir sempre, ainda que possa não ser uma experiência contínua, e esperemos que não seja. Assim, e do mesmo modo, quem parte para ali compreende quem parte para acolá. No adulto, a experiência de viver fora da mãe é viver fora de casa, fora dos seus hábitos, viver fora da sua língua. Por isso, hoje que vivo mais longe de casa (se ainda tenho casa), mais longe do que quando vivia na Turquia, sinto menos violentamente a falta de mim. Porque aqui no Rio de Janeiro, no Brasil, a língua que uso aproxima-me de mim e dos outros, não me deixa sozinho, comigo ou com os outros. Quem escreve um livro de ficção é sempre o próprio e o não-próprio, assim como na vida somos sempre nós e não-nós. A vida e a literatura são muito diferentes, se não opostas, mas não o modo como o humano as experiencia. Experienciamos a vida e a literatura do mesmo modo: com afectação. Por conseguinte, o que há de mim e de não-mim no narrador é pouco importante para o leitor, mas já não será pouco importante para esse mesmo leitor perguntar-se o que há dele e de não-dele. No fundo, é esta pergunta que todos fazemos em relação ao que nos afecta, isto é, saber onde, em nós, está aquilo que nos afecta.

Paulo José Miranda
23 de Agosto de 2005, Rio de Janeiro