sábado, abril 23, 2005

O amor ao Livro tem destas coisas

Hoje o dia do Livro, um feriado que não vem no calendário.
Na Livraria oferecemos flores.
Há qualquer coisa de festa no ar.
De manhã bem cedinho fomos ao mercado buscar quase uma vereda interinha.
Limpámos, arrumámos, como se faz nos dias de festa.
Durante o dia vamos distribuindo, flor para lá-grande sorriso para cá.
Às vezes são precisos pretextos para abrir Livros, outras vezes não.


As comemorações começaram já durante a semana.
Fomos a duas escolinhas, onde vendemos livros e contámos histórias,
dissémos poemas. O entusiasmo dos escutantes arrasou-nos.
Numa vez até houve uma claque que em resposta à pergunta:
"Agora História ou Poema? "Respondeu: "Poema! Poema! Poema!"
E no fim ouvir: "Oh, não se vão embora, contem só mais uma",
ajuda a prosseguir, faz acreditar. Faz acreditar MUITO.
Aqui deixo-vos um dos poemas que deixámos nos ouvidos pequeninos.

O limpa-palavras

Limpo palavras.
Recolho-as à noite, por todo o lado:
a palavra bosque, a palavra casa, a palavra flor.
Trato delas durante o dia
enquanto sonho acordado.
A palavra solidão faz-me companhia.

Quase todas as palavras
precisam de ser limpas e acariciadas:
a palavra céu, a palavra nuvem, a palavra mar.
Algumas têm mesmo de ser lavadas,
é preciso raspar-lhes a sujidade dos dias
e do mau uso.
Muitas chegam doentes,
outras simplesmente gastas, estafadas,
dobradas pelo peso das coisas
que trazem às costas.

A palavra pedra pesa como uma pedra.
A palavra rosa espalha o perfume no ar.
A palavra árvore tem folhas, ramos altos.
Podes descansar à sombra dela.
A palavra gato espeta as unhas no tapete.
A palavra pássaro abre as asas para voar.
A palavra coração não pára de bater.
Ouve-se a palavra canção.
A palavra vento levanta os papéis no ar
e é preciso fechá-la na arrecadação.

No fim de tudo voltam os olhos para a luz
e vão para longe,
leves palavras voadoras
sem nada que as prenda à terra,
outra vez nascidas pela minha mão:
a palavra estrela, a palavra ilha, a palavra pão.

A palavra obrigado agradece-me.
As outras, não.
A palavra adeus despede-se.
As outras já lá vão, belas palavras lisas
e lavadas como seixos do rio:
a palavra ciúme, a palavra raiva, a palavra frio.
Vão à procura de quem as queira dizer,
de mais palavras e de novos sentidos.
Basta estenderes um braço para apanhares
a palavra barco ou a palavra amor.

Limpo palavras.
A palavra búzio, a palavra lua, a palavra palavra.
Recolho-as à noite, trato delas durante o dia.
A palavra fogão cozinha o meu jantar.
A palavra brisa refresca-me.
A palavra solidão faz-me companhia.


Álvaro Magalhães, O limpa-palavras e outros poemas