domingo, janeiro 02, 2005

o futuro numa mão só

“Rosa do Mundo — 2001 Poemas para o Futuro”



"A herança das grandes histórias não é apenas verbal. Herdámos o poema, a sonoridade mágica da fala, a pintura rupestre que é a impressão de uma língua. Mas não só. Algumas histórias (e os poemas, mesmo os mais fulgurantes ou obscuros são isso: narrações, mitos, histórias), algumas histórias tornaram-nos herdeiros de um lugar, outras de uma casa, outras de uma razão. Certas histórias deixaram-nos o mapa depois da viagem, ou o barco em qualquer enseada, oculto ainda na folhagem, ou o azul desamparado e irresistível que lhes serviu de motivo para a demanda do longínquo. Há histórias que nos pintaram o rosto com terra amassada, vermelha, amarela, negra e iniciaram-nos na decifração do fogo, na escuta dos silêncios da terra, no entendimento dos sonhos. Há histórias que nos conduziram ao centro impenetrável de bosques, aos segredos da penumbra de um templo, à geografia de cidades, ao alarido dos mercados e à hesitação que a sabedoria por vezes dissolve, por vezes amplia.
Pelas histórias descobrimos a vastidão de um mundo interior, intacto e errante como uma paisagem do fundo dos mares, e assim primordial e delicado, arcaico e sublime. Das histórias recebemos o socorro quando nos faltaram palavras (ou outra coisa que não sabemos bem, mas que talvez nem fossem palavras) para medir a altura da alegria, porque, de repente, o amor, a poesia, a santidade se avizinharam e, percebemos, nada antes tinha sido, para nós, tão belo e tão perigoso.
A herança das grandes histórias constitui um património linguístico, é certo. Mas importa não esquecer que são dádiva confiada à vida, alento, sopro, energia pura. Quando na Bíblia se diz que «todos os nossos dias estão inscritos no livro», é porque se crê na possibilidade de o livro conter a extensão do tempo de uma vida. Tudo o que diz respeito a uma vida, seja ela longa, como a daqueles cuja idade se media pelas luas, ou brevíssima, como a viagem que rapazes fazem, no verão, de bicicleta, entre as aldeias em festa.
Isso dá ao livro e às histórias uma espécie de poder transfigurador. A «árvore da vida» das primeiras páginas do Génesis, «a estrela de Alva» dos hinos astecas, a «gazela» do folclore tuaregue, a «flor vermelha» duma canção mexicana, a «estrada larga» da declaração xamânica, a «raiz da vida» do poema de Madagáscar, a «planta da imortalidade» que Guilgamesh perde e procura, são-nos entregues, não só como metáforas, mas como símbolos que sustentam connosco, a nosso lado, o mistério da existência. Esses símbolos são linguagem que resiste a uma descida aos abismos. As metáforas estilhaçam-se rapidamente. Os símbolos têm capacidade de religar, a partir do fundo, as pontas decepadas e dispersas, os opostos da alma: a noite e o dia, a dor e o riso, a acção e a contemplação, a vida e a morte.
Seja o poder das histórias, essa torrente imemorial, secreta e profusa, esse sopro íntimo que arranca do mundo, da extrema fragilidade do mundo, o encantado desenho de uma música interminável, a dizer o amigo que atava as grandes histórias, as mais maravilhosas, em livros (sem os quais não seríamos os mesmos, ou não conseguiríamos talvez já viver), pela paixão, pela simples paixão, de encher a nossa vida desses ramos perfumados e bravios!"

José Tolentino Mendonça
Em "Phala nº100", número de homenagem a Manuel Hermínio Monteiro