terça-feira, outubro 05, 2004

Todos os dias há qualquer coisa que podia ir para a colecção



Três cavalos, de Erri de Luca. Edição Ambar

A vida de um homem dura a vida de três cavalos.
É preciosa e simultaneamente desprendida e fugaz.
O homem pode reduzir-se a um par de sapatos, os seus preferidos e ter como o seu único companheiro, íntimo, o livro, no lugar antes destinado à arma, igual segurança.

“Toco o livro no bolso, aqui está um bom bocado de regresso [regresso, este verbo empurra-me], deixo-o estar, é convalescença para os dias que aí vêm.”

“Pego no livro suspenso na marca, volto a acertar o passo pelo dele, pela respiração de um outro que conta. Se também eu sou um outro é porque os livros mais do que os anos e as viagens mudam os homens.”

“ Tira-me o peso do corpo. É o que devem fazer os livros, levar uma pessoa e não fazer com que tenha de ser ela a levá-lo, tirar-lhe o dia das costas, não juntar mais umas gramas de papel às suas vértebras.”

Abra este livro, é leve e tem um “estendal de histórias” curtas, histórias de ninguém onde apetece permanecer até ao instante do mangericão, vinho, queijo e a meiguice desnuda de quatro pés juntos.

“Amanhã, digo, e que importa? Tenho aqui todo o hoje que preciso.”