sexta-feira, agosto 13, 2004

Todos os dias há qualquer coisa que pode ir para a colecção



então me deito junto à água e entro
de repente nos pulsos: o que amei perdura,
vão-se apagando lentamente as asas
inclinadas dos projectores, as pálpebras
bocejam a alegria azul dos dedos,
estendo os braços e os animais aguardam
de dentro das redes esticadas, abertas,
e um pássaro pousa nos ramos, nas folhas,
seguro do silêncio onde os tiros caem
sobre a água e devagar mergulham,
e respiram no fundo um corredor imóvel.

António Franco Alexandre
(à tua espera na página 19) de Poemas, Edição da Assírio & Alvim


um bicho abre no azul
o lugar de guardar-se: em concha, em osso,
em móvel crueldade.
rasga os dentes o lugar dos ossos.
interminavelmente oculta
a ocupação dos astros.
em seu lugar se guarda. mistura
no sangue e na saliva o azul, a carne.
faz, ocupado, o tempo: e ocupa
enterrado as palavras, em seu osso.

mas os olhos: nossos um bicho guarda,
intactos em seu tempo, intermináveis.


António Franco Alexandre
(à tua espera na página 59) de Poemas, edição da Assírio & Alvim