quinta-feira, agosto 12, 2004

sexta feira 13

a viagem a mário cesariny iniciar-se-á com o poema abaixo e nunca terminará


XVII

eu em 1951 apanhando (discretamente) uma beata(valiosa)
num café da baixa por ser incapaz coitados deles
de escrever os meus versos sem realizar de facto
neles, e à volta sua, a minha própria unidade
- fumar, quere-se dizer.
esta, que não é brilhante, é que ninguém esperava
ver num livro de versos. Pois é verdade. Denota
a minha essencial falta de higiene (não de tabaco)
e uma ausência de escrúpulo (não de dinheiro)notável.

o Armando, que escreve à minha frente
o seu dele poema, fuma também,

Fumamos como perdidos escrevemos perdidamente
e nenhuma posição no mundo (me parece) é mais alta
mais espantosa e violenta incompatível e reconfortável
do que esta de nada dar pelo tabaco dos outros
(excepto coisas como vergonha, naturalmente,
e mortalhas)

(que se saiba) é esta a primeira vez
que um poeta escreve tão baixo
(ao nível das priscas dos outros)

aqui, e em parte mais nenhuma,
é que cintila o tal condicionalismo
de que há tanto se fala e se dispõe
discretamente (como quem as apanha).

sirva tudo de lição aos presentes e futuros
nas taménidas (várias) da poesia local
Antes andar por aí relativamente farto
antes para tabaco que para cesariny
(mário) de vasconcelos.



Mário Cesariny

manual de prestidigitação
assírio e alvim
1981