sábado, agosto 07, 2004

A revolução não tem férias (Parte 2)

E hoje podem escutar-se as palavras de Sophia

"Mesmo que fale somente de pedras ou de brisas a obra do artista vem sempre dizer-nos isto: Que não somos apenas animais acossados na luta pela sobrevivência mas que somos, por direito natural, herdeiros da liberdade e da dignidade do ser" Sophia no Livro Sexto, Edição Caminho

"Todas a pessoas deixam uma marca indelével no século por onde passam, uma pegada na areia ou o nome escrito em letras de oiro no pedestal das estátuas." Jorge de Sousa Braga



"Vimos o mundo aceso nos seus olhos,
E por os ter olhado nós ficámos
Penetrados de força e de destino

Ele deu carne àquilo que sonhámos
E a nossa vida abriu-se, iluminada
Pela imagem de oiro que ele vira.

Veio dizer-nos qual a nossa raça,
Anunciou-nos a pátria nunca vista,
E a sua perfeição era o sinal
De que as coisas sonhadas existiam.

Vimo-lo voltar das multidões
Com o olhar azulado de visões
Como se tivesse ido sempre só.

Tinha a face orientada para a luz
Intacto caminhava entre os horrores
Interior à alma como um conto.

E ei-lo caído à beira do caminho,
Ele - o que partira com mais força,
Ele - o que partira para mais longe.

Porque o ergueste assim como um sinal?
Pusemos tantos sonhos em seu nome!
Como iremos além da encruzilhada
Onde os seus olhos de astro se quebraram?"

de Sophia, na Poesia em edição da Caminho.



"Sophia é uma forma absoluta de estar no mundo à espera das coisas belas. Cresceu entre rosas nocturnas e manhãs de mar. Escreveu desde o princípio. Lutou com a palavra, quando foi preciso. Não teve medo. Continuamos a aprender com ela." [...]
Era assim a casa das Mónicas nesse tempo antes da revolução: poetas, pintores, figuras da oposição, entravam às horas mais bizarras, recitavam-se poemas, conversava-se madrugada fora, contra as horas obscuras da ditadura. E no centro de tudo, Sophia, a que esperava "o dia inteiro e limpo", que havia de vir.
E veio. E no primeiro 1º de Maio que os portugueses puderam celebrar juntos como nunca em liberdade, Sophia disse: "A poesia está na rua".
"E essa forma absoluta de estar diante do mundo à espera das coisas belas.

Sem medo."


Alexandra Lucas Coelho, © 1999 PÚBLICO