domingo, agosto 08, 2004

Esta chuva lembra boas conversas com chá quentinho

A livraria que não pára

Jorge Pedro e Sónia Sequeira tinham "uma ideia e seiscentos nomes".
Mário Cesariny resolveu o problema.
Durante uma conversa, sugeriu o nome daquele seu poema que começa assim:
"O navio de espelhos / não navega, cavalga".
Eis como em Julho de 2003, numa pequena rua sem trânsito do centro histórico de Aveiro,
abriu O Navio de Espelhos.
Tomou por lema "a livraria que não pára", e tem feito por merecê-lo.
Em apenas quatro meses de vida, O Navio de Espelhos organizou debates sobre o aborto e a constituição europeia, fez acções de rua, numa fábrica, com escolas, com o Teatro Aveirense, com a Universidade, com uma loja de design, outra de música, outra de objectos para crianças. Além de livros, vende CD de música clássica, jazz e world, tem um pequeno café com jornais e revistas, e acolhe exposições, lançamentos, leituras, conversas, projecções, teatro, animações e concertos. Na passagem do ano fez uma noite branca, e houve gente até de madrugada.
Para uma projecção de slides da Antártida, pôs um cubo de gelo gigante a derreter, à porta.
A livraria está aberta das dez à meia-noite, só fecha às segundas, e quase todos os dias acontecem coisas.
Peguemos, por exemplo, nesta semana.
Terça à noite: aula aberta sobre globalização (todas as semanas há um tema diferente).
Quarta à noite: leitura partilhada (embrião de uma comunidade de leitores semanal).
Ontem: um serão vicentino com a apresentação dos livros "Revisões de Gil Vicente", de José Cardoso Bernardes, e "Ensaios Vicentinos" da Escola da Noite (aproveitando a presença desta companhia no belo Teatro Aveirense, que fica mesmo ao lado d''O Navio).
Hoje à noite: actores lêem Boris Vian ("A Espuma dos Dias", "As Formigas", "O Arranca-Corações").
Amanhã à tarde: a Hora do Conto, com leituras para crianças, como sempre aos domingos.
Como já podem pressentir, o "best seller" não é propriamente a aposta d''O Navio.
"Não promovemos aquilo que já está promovido", diz Sónia.
"Mas se as pessoas pedirem, nós encomendamos."
Não há sessões de autógrafos. Há Harry Potter (o último), mas definitivamente não há livros de auto-ajuda.
Há o "Equador" de Miguel Sousa Tavares, mas não haverá Margarida Rebelo Pinto.
O "top" de vendas, aqui, pode fazer-se com Albert Cossery, Gonçalo M.Tavares (que lançou todos os seus últimos livros n''O Navio), Mário Vargas Llosa ou os audiolivros de Ruy Belo.
Uma casa
O Navio é uma casa antiga de dois andares, com telhado em vê e a fachada do piso térreo toda em vidro.
Jorge: "Um dia vimos um cartaz a dizer que isto se arrendava."
Sónia: "Nessa altura, o Aveirense estava em obras, a rua estava fechada e as pessoas não circulavam. Mas pensámos que se habitássemos o espaço, ele passaria a ser habitado por outros."
O espaço lá dentro é amplo e aberto. Estantes nas paredes, mesas (mas também escadotes, malas ou cestos) com livros em destaque, sofás, a zona de café ao fundo (mais perto dos discos), um grande balcão do lado direito.
Há um som de harpa e depois uma voz, quando entramos (Adrianna Savall, no leitor de CD). Quem comece a ver os livros à medida que vai andando, começa pela poesia. Há uma mesa inteira só para livros da Antígona, outra para livros da Assírio & Alvim (noutro dia, podem ser livros da Relógio d''Água, por exemplo).
Há uma mesinha ao pé da janela que só tem Jorge Luis Borges e Ruy Belo (a pretexto da recente reedição na Dom Quixote da antologia de Borges que o poeta português traduziu).
A seguir à ficção, há uma grande estante pintada de amarelo, cheia de livros infantis, e cubos coloridos e fofos para as crianças se sentarem (ou deitarem).Depois, ficção juvenil, ciência, e, já na zona do café, ciências sociais, filosofia, biografias, livros de vinhos e de gastronomia, uma estante com volumes sobre Aveiro, revistas, jornais, velas, o expositor dos discos.
Pelas paredes há figurinhas pintadas por Rachel Caiano, a mesma artista que coloriu o alegre recanto da casa de banho das crianças (com loiças em miniatura).
Ao fundo, uma escada leva à cave, onde estão livros de arte, BD, cinema, fotografia. O chão está coberto por tapetes e há uma tela para projecções e para o teatro de sombras "A Rainha das Cores", duas a três vezes por semana: "Dá para 50 crianças de cada vez", diz Sónia Sequeira.
"Muitas, nunca entraram numa livraria. A ideia é essa, o contacto com os livros. Não é só entretê-las." A Hora do Conto às vezes é aqui. "Nunca repetimos um conto, todas as semanas é diferente."
Voltando a subir as escadas, ao longo do balcão onde se paga, há também uma velha máquina de escrever, biscoitos, nozes, compotas, chás e cafés.
E O Navio prepara-se para ter provas de vinho.
Como se começa? A Sónia é de Almada, o Jorge de Castelo Branco. Ela tem 30 anos, ele 25. Conheceram-se em Aveiro, para onde ambos vieram estudar ciências. "Éramos uns críticos da cidade", diz Jorge. "Então, pensámos em partir para a crítica activa." Como gostam mesmo de livros, e acreditam que "os livros unem as artes todas", uma livraria permitia "fazer um bocadinho de tudo". Em Aveiro já havia livrarias como a Bertrand, duas Editorial Notícias, a Byblos (que investe muito na venda "on line"), ou a Languedoque, para além da universidade. Não era o deserto. Precisavam de saber como se fazia.
Foram pedir ajuda a José Pinho, da Ler Devagar, a livraria do Bairro Alto, em Lisboa, que apostou em fundos editoriais, horário alargado, actividades regulares e numa zona de café - apostas entretanto adoptadas por livrarias que se tornaram parceiras da Ler Devagar como a Fonte de Letras, em Montemor-o-Novo, e a Vemos, Ouvimos e Lemos, em Serpa.
"Se não tivessemos falado com [José Pinho], a livraria não seria esta" diz Jorge. "A ideia é que isto seja uma rede de livrarias com partilha de saberes. Entre nós há uma coisa invulgar no mercado do livro: partilhamos, sempre que descobrimos uma maneira de as coisas correrem melhor." Seguindo a sugestão de José Pinho, optaram pelo modelo da sociedade anónima. Enviaram cartas a várias pessoas, divulgando o projecto e pedindo sugestões ou apoio. Arrancaram com oito sócios (um deles é a Ler Devagar, que também fornece fundos editoriais), 50 mil euros de investimento inicial, e duas pessoas contratadas para ajudar na livraria.
Abrir portas é só o princípio. "O José Pinho diz que isto é uma maratona", lembra Jorge, que, tal como Sónia, não folga há quatro meses. "Tem que haver dinheiro para sustentar os investimentos", reforça o responsável da Ler Devagar.
"O importante é que possamos fazer por muito tempo o que fazemos de bom."
Quanto a contas, o par fundador d''O Navio, até agora, não se queixa.
Jorge: "Fechámos o ano acima das expectativas."
Sónia: "No Natal, encomendámos menos do que precisámos.
Dezembro foi um mês com uma actividade por dia..." Jorge: "Temos muita gente à hora de almoço, porque está tudo fechado.
À noite é oscilante: quando há actividades, as pessoas vêm." Sónia: "Quando fechámos para inventário, as pessoas ficaram a reclamar lá fora.
À segunda, vendemos quando nos batem à porta..." Jorge: "Como estamos aqui sempre, até às segundas..." Sónia: "Este Verão queremos ter livros portugueses traduzidos, há muitos turistas em Aveiro." Também querem fazer feiras do livro em escolas, como fizeram na fábrica da Renault, e vão fazer de 15 a 21 de Março na Feira da Poesia em Santo Tirso.
E Mário Cesariny? "Ainda não viu O Navio. Queremos que ele venha passar uma semana."

Por ALEXANDRA LUCAS COELHO no Público de 2004/02/21